01 · A floresta
A floresta que resiste ao fogo
Antes do eucalipto, a paisagem portuguesa era feita de sobreiros, carvalhos e medronheiros — espécies que evoluíram para conviver com o fogo mediterrânico, não para o alimentar.
Deslize para entrar na floresta
A floresta nativa abre-se — e por trás dela, o eucaliptal arde.
02 · A invasão
As nativas saem, o eucalipto entra
Hoje o eucalipto é a espécie florestal mais comum de Portugal, com cerca de 845 mil hectares — aproximadamente um quarto de toda a área florestal do país.
Em pouco mais de meio século, o Eucalyptus globulus passou de curiosidade botânica a paisagem dominante. Onde havia carvalho, mato e sobreiro, alinham-se agora filas plantadas, cortadas em ciclos curtos para alimentar as fábricas de pasta de papel.
Uma floresta plantada para ser cortada, não para durar.
- Quase um décimo de todo o território de Portugal continental.
- Mais de uma vez e meia a região do Algarve inteira.
- O equivalente a 84 cidades de Lisboa lado a lado.
03 · Porquê?
A economia da pasta de papel
A partir dos anos 1960, incentivos à indústria da celulose e o rápido crescimento do eucalipto levaram milhares de pequenos proprietários a plantá-lo, substituindo matos e floresta autóctone.
A lógica é simples e implacável: o eucalipto cresce depressa e dá dinheiro depressa, pronto a cortar em cerca de uma década, enquanto um sobreiro leva perto de 25 anos até dar a primeira cortiça. Para cada proprietário foi a escolha racional — e o país inteiro fê-la ao mesmo tempo.
E há um atalho ainda mais cómodo: muitos donos, sem tempo nem vontade de limpar e gerir a mata, arrendam simplesmente o terreno a uma grande empresa de pasta, que o planta de eucalipto e paga uma renda. A terra rende sem dar trabalho — mas deixa de ser floresta e passa a ser fábrica.
Porque é que os donos aceitam isto?04 · A terra
A conta que não fecha
Arrendar a terra a uma empresa de pasta é, à primeira vista, um bom negócio para quem não quer trabalho: só a Navigator gere cerca de 109 mil hectares de floresta, dos quais perto de 50 mil são terrenos arrendados a proprietários. O dono recebe uma renda anual fixa — ou uma parte do valor da madeira no corte — em contratos que podem chegar aos 25 anos.
Mas a conta a prazo é outra. O eucalipto corta-se de 10 em 10 anos e, a cada rotação, esgota água e nutrientes do solo. A cortiça leva 25 anos até à primeira extração — mas depois um sobreiro dá cortiça durante mais de um século. E a cortiça é a joia da floresta portuguesa: exportou 1 148 milhões de euros só em 2024.
A monocultura paga pouco a quem arrenda e cobra caro a toda a gente: solo empobrecido, linhas de água mais secas, biodiversidade perdida e um risco de incêndio que recai sobre quem vive ao lado das plantações — não sobre quem lucra com elas.
Recebes uma renda pequena; a paisagem paga o resto.
05 · Quem lucra
Quem lucra com o eucalipto
A fileira concentra-se em poucos grandes atores — Navigator e Altri na produção de pasta e papel, com a CELPA a representar o setor.
A pasta e o papel estão entre as maiores exportações industriais portuguesas, e o eucalipto é a matéria-prima dessa fileira. O modelo é rentável para quem transforma — mas o risco de incêndio recai sobre quem vive no meio das plantações.
The Navigator Company1953
A Navigator (ex-Portucel, fundada em 1953 e rebatizada em 2016) foi pioneira mundial da pasta de eucalipto e é hoje o maior produtor português de papel fino de impressão e escrita e um dos maiores exportadores nacionais, com a fileira do eucalipto no centro do negócio.
5Navigator- Receita 2024
- ≈ 2 mil M€
- Quota na Europa
- ~29% papel · ~16% pasta
- Floresta gerida
- ≈ 109 000 ha
Altri2005
A Altri, constituída em 2005, é o segundo grande produtor português de pasta de eucalipto, operando as fábricas das marcas Celbi, Caima e Celtejo.
7Altri- Fundação
- 2005
- Capitalização
- ≈ 1 mil M€
- Capacidade
- ≈ 900 mil t/ano
CELPA — Associação da Indústria Papeleira
A CELPA é a associação que representa a indústria portuguesa da pasta e do papel, publicando o Boletim Estatístico anual do setor.
3CELPA
06 · O fogo
Pedrógão Grande, junho de 2017
A 17 de junho de 2017, um incêndio em Pedrógão Grande matou 66 pessoas, muitas em fuga nas estradas. A projeção de brasas a longa distância — favorecida pela casca do eucalipto — abriu novas frentes à frente das chamas.
Não foi um caso isolado. Em outubro do mesmo ano, uma segunda vaga de incêndios varreu o centro e o norte do país, e 2017 fechou como o ano mais mortífero de que há registo — mais de uma centena de vidas perdidas ao fogo. No meio da destruição, os sobreiros ficaram de pé.
No meio da destruição, os sobreiros permaneceram de pé.
07 · O ciclo
O fogo ajuda o eucalipto a vencer
O eucalipto rebenta vigorosamente após o fogo e a sua regeneração beneficia da perturbação, criando um ciclo em que arder favorece o próprio eucalipto face às espécies autóctones.
Cada incêndio limpa a concorrência e entrega o terreno aos rebentos e às sementes que o calor liberta. Quanto mais arde, mais eucalipto ocupa o espaço — e quanto mais eucalipto, mais depressa e mais longe volta a arder. É um ciclo que se alimenta a si próprio.
Quanto mais arde, mais eucalipto. Quanto mais eucalipto, mais arde.Porque é que isto acontece?
08 · Fogo e semente
Como o eucalipto usa o fogo
O Eucalyptus globulus não só sobrevive ao fogo como o aproveita. A casca fibrosa solta-se em tiras que ardem e voam quilómetros à frente da frente de fogo, abrindo novos focos muito antes de as chamas chegarem — foi este mecanismo que ajudou a alastrar o incêndio de Pedrógão.
Depois de arder, rebenta com vigor a partir de gomos protegidos sob a casca e de um lenhotúber na base do tronco, enquanto as cápsulas abertas pelo calor libertam sementes sobre um solo limpo de concorrência. Onde a floresta nativa demora anos a voltar, o eucalipto reocupa o terreno numa só estação.
O fogo não é o inimigo do eucalipto — é o seu semeador.
09 · As nativas
As espécies que combatem o fogo
Nem todas as árvores ardem da mesma maneira. Estas espécies nativas resistem ao fogo, rebentam depois dele ou funcionam como barreiras naturais — a verdadeira infraestrutura de defesa de Portugal contra os incêndios, e ela cresce sozinha.
- Resiste ao fogo
Sobreiro
Quercus suber
A árvore nacional — a casca de cortiça que sobrevive ao fogo.
A cortiça é um isolante natural: a casca espessa protege o tronco e os gomos, e a árvore rebenta de novo depois do fogo. É a árvore nacional de Portugal desde 2011, e o país é o maior produtor mundial de cortiça, com cerca de metade da produção global.
- Rebenta após o fogo
Azinheira
Quercus rotundifolia
A guardiã seca do montado — resistente à seca e ao calor.
Companheira do sobreiro no montado do sul, a azinheira tolera secas prolongadas e solos pobres. Depois de queimada rebenta da toiça, e as suas bolotas alimentam o porco de montanheira. O montado de sobro e azinho é um dos habitats protegidos pela Rede Natura 2000.
- Rebenta após o fogo
Carvalhos
Quercus robur, Q. pyrenaica, Q. faginea
As florestas caducifólias do norte e interior — húmidas e frias.
Os carvalhais caducifólios — alvarinho, negral e cerquinho — dominavam o norte e o interior de Portugal antes da expansão do eucalipto e do pinheiro. O seu sub-bosque húmido e a sombra densa retêm humidade, reduzindo a intensidade do fogo em comparação com os povoamentos de eucalipto.
- Rebenta após o fogo
Medronheiro
Arbutus unedo
O arbusto que rebenta depois do fogo — e dá a aguardente de medronho.
Espécie mediterrânica resiliente ao fogo: rebenta vigorosamente da toiça após queimada. O seu fruto é destilado na tradicional aguardente de medronho, e é hoje promovido em plantações de baixa inflamabilidade como alternativa económica ao eucalipto em zonas de risco.
- Barreira corta-fogo
Galerias ripícolas
Fraxinus angustifolia, Alnus glutinosa, Salix, Populus
Corredores verdes junto à água — barreiras naturais ao fogo.
Freixos, amieiros, salgueiros e choupos junto às linhas de água mantêm folhagem húmida durante o verão. Estas galerias funcionam como barreiras corta-fogo naturais, abrandando ou parando a progressão das chamas, além de sustentarem a biodiversidade e a qualidade da água.
10 · A resistência
Quem está a lutar
Contra a monocultura há quem plante, quem compre terreno abandonado para o deixar voltar a ser floresta, e quem tenha mudado a lei. A resistência é científica, associativa e política — e espalha-se de norte a sul do país.
Quercus — Associação Nacional de Conservação da Natureza1985
A Quercus, fundada em 1985, é uma das mais antigas ONG ambientais portuguesas e faz campanha pela floresta autóctone e contra a monocultura de eucalipto.
13QuercusZERO — Associação Sistema Terrestre Sustentável2015
A ZERO, criada em 2015, intervém em políticas de floresta, clima e ordenamento do território, defendendo a redução da área de eucalipto em zonas de risco.
14ZEROMontis — Associação de Conservação da Natureza
A Montis pratica custódia do território: adquire ou gere terrenos abandonados para recuperar floresta autóctone de baixa inflamabilidade.
15MontisATN — Associação Transumância e Natureza
A ATN gere a Reserva da Faia Brava, no vale do Côa — a primeira área protegida privada de Portugal — restaurando habitats e reintroduzindo herbívoros selvagens.
16ATNPlantar uma Árvore
A associação Plantar uma Árvore organiza ações de reflorestação com espécies autóctones, envolvendo voluntários na recuperação de áreas ardidas.
17PlantarLei n.º 77/2017 — regime de arborização2017
Na sequência dos incêndios de 2017, a Lei n.º 77/2017 alterou o regime jurídico de arborização e rearborização, travando o alargamento líquido da área de eucalipto — novas plantações passaram, em regra, a exigir a substituição de eucaliptal existente.
18Lei 77/2017
11 · O que podes fazer
A floresta é das pessoas
Mesmo quem arrenda o seu campo a uma grande empresa sai, no fundo, a perder: recebe pouco em troca de um custo ambiental enorme que só se cobra décadas depois. Vivemos pouco para ver o estrago de perto — mas já estamos a ver o que uma indústria semeada há meio século nos deixou.
A floresta é das pessoas, não das empresas. Plantar autóctones, apoiar associações de conservação e custódia do território, e preferir produtos de floresta nativa — como a cortiça — são formas concretas de inverter a monocultura.
Nenhum gesto isolado inverte meio século de eucalipto. Mas escolher cortiça em vez de plástico, apoiar quem restaura floresta autóctone e saber a origem daquilo que se compra são decisões que, somadas, mudam a procura. E é a procura que, no fim, decide o que se planta.
A floresta é das pessoas, não das empresas.
Onde o eucalipto ardeu, a floresta nativa regressa.
Todos os números e afirmações do site, ligados à sua origem. Carrega num número ao longo da página para saltar até à fonte.
- 1.ICNF — 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6) (2019)
- 2.Literatura sobre ecologia do fogo mediterrânico: inflamabilidade comparada, regeneração pós-fogo de espécies autóctones (rebentação de toiça e raiz) e de Eucalyptus globulus (talhadia e libertação de sementes pelo calor)
- 3.CELPA — Associação da Indústria Papeleira, Boletim Estatístico
- 4.APCOR — Associação Portuguesa da Cortiça
- 7.Altri SGPS — Relatório e Contas / Euronext Lisbon
- 8.Comissão Técnica Independente (Assembleia da República) — relatórios dos incêndios de junho e de outubro de 2017 (2017)
- 9.ICNF — estatísticas de área ardida (2017)
- 10.APCOR / INE — exportações portuguesas de cortiça (noticiado pela RTP/Lusa) (2024)
- 11.Florestas.pt / ICNF — estrutura da propriedade florestal em Portugal (privada, fragmentada)
- 12.DGT — Carta Administrativa Oficial de Portugal (CAOP), áreas administrativas
- 13.Quercus — Associação Nacional de Conservação da Natureza (1985)
- 14.ZERO — Associação Sistema Terrestre Sustentável (2015)
- 15.Montis — Associação de Conservação da Natureza
- 16.ATN — Associação Transumância e Natureza / Reserva da Faia Brava
- 17.Plantar uma Árvore — associação de reflorestação com espécies autóctones
- 18.Diário da República — Lei n.º 77/2017, de 17 de agosto (2017)
- 19.Assembleia da República — Resolução que consagra o sobreiro como Árvore Nacional de Portugal (2011)
- 20.ICNF — Habitat 6310 'Montados de Quercus spp. de folha perene' (Rede Natura 2000)
- 21.ICNF — programas de valorização do medronheiro como espécie de menor inflamabilidade
- 22.APA — gestão de galerias ripícolas / literatura sobre corredores ripários como corta-fogos






